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Engenharia de Software Moderna

Marco Tulio Valente

Micro-SaaS: Microempresas de Software como Serviço

Introdução

Em um artigo anterior, comentamos sobre os desafios do ensino de Engenharia de Software. A mensagem principal do artigo era que existem desafios em três dimensões: conceitual, prática e comportamental. No entanto, no final do artigo, comentamos também sobre uma quarta dimensão: formação empreendedora.

Existem diversos caminhos que alunos podem tomar na área de empreendedorismo. Hoje em dia, o caminho mais desejado talvez seja criar uma startup de sucesso, obter financiamento via capital de risco e virar um unicórnio. No entanto, evidentemente, esse não é um caminho trivial, isto é, são pouquíssimas empresas que alçam esse nível sucesso. Além disso, já existe uma vasta literatura sobre a criação e administração de startups financiadas por meio de capital de risco.

Por outro lado, existe um caminho oposto, que se costuma chamar de micro-SaaS. E parece que ele é menos conhecido e explorado, principalmente no Brasil. Por isso, resolvemos escrever esse pequeno artigo sobre o assunto.

Definição

Uma definição, genérica, de micro-SaaS é a seguinte:

Micro-SaaS é um pequeno empreendimento de software, auto-financiado, completamente administrado por 1-2 desenvolvedores e que atende a uma necessidade específica. Além disso, um micro-SaaS segue um modelo de serviços (Software as a Service), com pagamentos recorrentes (assinaturas) por parte de centenas ou alguns milhares de clientes globais.

Exemplos

Para ficar mais claro, vamos dar alguns exemplos de micro-SaaS:

  • Saber Feedback é uma aplicação que possibilita adicionar um pequeno botão Feedback na lateral direita de todas as páginas de um site Web. Usuários podem usar esse botão para dar feedback sobre o site e suas páginas, reportando desde erros ortográficos até bugs de lógica ou de interface. A princípio, parece que o sistema é mantido por um único fundador, mais alguns freelancers. A assinatura do sistema começa em US$ 29.00 mensais.

  • Transistor é um sistema para hospedagem e distribuição de podcasts. Toda a operação do sistema é mantida pelos dois fundadores da empresa e a assinatura mensal mais barata custa US$ 19.00.

  • Permanentlink é um sistema recém-lançado, que pode ser considerado ainda um MVP (Produto Mínimo Viável). Ele pretende resolver um problema enfrentado por autores de livros digitais: esses livros incorporam diversos links (URLs), que com o tempo podem quebrar. A ideia então é disponibilzar uma URL permanente para os documentos referenciados. Enquanto um link estiver ativo, o sistema redireciona a conexão para ele; se o link quebrar, retorna-se uma cópia da página armazenada localmente pelo sistema. A assinatura mais barata do serviço custa US$ 25.00 por mês.

De forma interessante, esses sistemas são tanto B2B (Business-to-Business) como B2C (Business-to-Customers). Isto é, eles podem ter clientes que são empresas ou consumidores finais.

E gostaríamos também de citar alguns contra-exemplos: certamente, sistemas como Dropbox, Slack e Zoom não são micro-SaaS. Esses sistemas pertencem a empresas que já são grandes, com dezenas, talvez centenas de engenheiros de software.

Desafios e Riscos

O grande desafio de um micro-SaaS é achar um nicho de mercado, que tenha um problema real que possa ser resolvido por meio de um sistema relativamente pequeno. E, mais importante, esse problema tem que ser relevante para atrair clientes dispostos a pagar um assinatura mensal para ter acesso a um sistema que o resolva.

Adicionalmente, os fundadores de um negócio de micro-SaaS são responsáveis não apenas por desenvolver e manter o sistema, mas também por outras funções, tais como:

  • Cuidar da parte de operação. No entanto, essa tarefa ficou mais simples, devido à disponibilidade de sistemas de computação em nuvem que permitem rapidamente criar máquinas virtuais com todo o software básico instalado.

  • Cuidar da parte de cobrança e recebimento das assinaturas. Porém, hoje existem serviços para isso, oferecidos por empresas com Stripe ou PagSeguro.

  • Cuidar da parte de atendimento e suporte a clientes. Para isso é importante automatizar e documentar bem todos os processos e, também, usar sistemas de low-code, como Zapier.

  • Cuidar da parte de marketing e divulgação, que hoje em dia pode se beneficiar bastante de marketing de conteúdo e de técnicas de SEO (Search Engine Optimization). Além disso, um modelo freemium pode ajudar a atrair clientes. Neste modelo, os clientes podem testar o sistema por um tempo de forma gratuita.

Evoluindo um micro-SaaS

Quando um micro-SaaS faz sucesso e atrai um número maior de clientes, é natural que o empreendimento também cresça, principalmente em termos de estrutura de atendimento a clientes. E isso pode ser feito de forma também auto-financiada, com os recursos das próprias assinaturas do serviço.

Um caso interessante é o sistema Less Annoying CRM, para gerenciamento de dados de clientes. Como o próprio nome diz, seu objetivo é ser um sistema de CRM (Customer Relationship Management) mais simples do que os sistemas concorrentes de grandes empresas, como Salesforce. Em contrapartida, a assinatura do sistema é também mais barata, apenas US$ 15.00 por mês. A Less Annoying CRM foi criada em 2009, por dois fundadores. Em 2013, a empresa, ainda como um micro-SaaS, chegou a 1.5K clientes, com apenas mais um colaborador. Em 2020, ela possui mais de 22 mil clientes e 17 colaboradores, cerca de metade atuando em atendimento a clientes.

Métricas

Antes de concluir, gostaríamos de comentar sobre algumas métricas usadas para avaliar o sucesso de sistemas SaaS (ou micro-SaaS):

  • Custo de Aquisição de Clientes (CAC) (ou Customer Acquisiton Cost): custos com propaganda, vendas, etc em um mês / número de novos assinantes no mês.

  • Receita Mensal Recorrente (MRR) (ou Monthly Recurring Revenue): Somatório do valor das assinaturas recebidas no mês. Ou seja, é o faturamento mensal obtido com o sistema. Existe também o termo Receita Anual Recorrente (ARR).

  • Taxa de Cancelamentos (Churn Rate): número de cancelamentos no mês / total de clientes no início do mês.

  • Valor do Tempo de Vida do Cliente (LTV) (Customer Lifetime Value): assinatura média no mês / taxa de cancelamentos. Exemplo: se a assinatura média é de R$ 100 e a taxa de cancelamento for de 25%, temos que LTV = 100 / 0.25 = R$ 400.

Para um SaaS ser viável, LTV > CAC. Na verdade, costuma-se recomendar que LTV / CAC > 3.0.

Artigo Relacionado

Veja também este outro artigo sobre monetização de software.

Exercícios

  1. Pesquise e descreva alguns sistemas micro-SaaS (de forma semelhante àquela que fizemos no artigo). Algum desses sistemas é brasileiro?

  2. Tente pensar e projetar um sistema micro-SaaS. Qual problema ele vai resolver? Quais serão seus principais usuários? Quais serão as funcionalidades do primeiro MVP do sistema?

  3. Do ponto de vista de monetização, qual a vantagem de micro-Saas em relação a uma pequena app para celulares (comercializada em lojas como Google Play e Apple Store)?


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