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Engenharia de Software Moderna

Marco Tulio Valente

Product Discovery: Uma Breve Introdução

Contexto

Em certos cenários, o sistema de software que devemos construir está bem definido e claro. Por isso, nesses cenários, faz sentido usar a palavra requisito, pois o cliente consegue expressar muito bem o que o sistema deve fazer.

No entanto, em outros cenários, essa clareza simplesmente não existe. Por exemplo, muitas vezes não temos nem certeza de que o software – ou alguma funcionalidade importante dele – será necessário e possuirá mercado. Então, nesse tipo de cenário, costuma-se usar o termo discovery para designar um conjunto de atividades realizadas com o objetivo de descobrir o que de fato deve ser implementado.

Em cenários de discovery, costuma-se usar o termo hipótese, no lugar da palavra requisito. O objetivo é deixar claro que primeiro precisamos realizar alguns experimentos para então definir, de fato, o que será implementado.

Normalmente, o processo de discovery é liderado por profissionais como Product Owners (PO), Product Managers (PM) ou UX Researchers. No entanto, é importante contar com a participação também de desenvolvedores e outros stakeholders.

Exemplo

Suponha que trabalhamos em uma empresa que desenvolve um sistema de ensino a distância. Os clientes são universidades que pagam uma assinatura mensal. Então, queremos implementar uma nova funcionalidade nesse sistema: a possibilidade dos alunos marcarem reuniões síncronas de curta duração com os professores das disciplinas para tirarem dúvidas individualmente.

A nossa hipótese é a seguintes:

Reuniões síncronas vão melhorar a experiência de aprendizado dos alunos. Consequentemente, o nosso sistema será melhor avaliado pelos gestores das universidades. E, por isso, mais universidades vão assinar o sistema e menos universidades vão solicitar o seu cancelamento. Isso vai ajudar a atingir nossos principais objetivos de negócio neste trimestre.

Então, para validar essa hipótese temos que verificar os seguintes itens:

  • Se a falta de uma interação síncrona e individual com os professores é uma dor real que incomoda os alunos.

  • Se as universidades estão dispostas a alocar tempo de seus professores para participarem dessas reuniões.

  • Se essa funcionalidade será viável economicamente. Por exemplo, teríamos que verificar se as universidades poderiam cobrar por essas reuniões.

  • Se existe algum eventual problema legal relacionado com a implementação dessa nova funcionalidade. Por exemplo, temos que verificar se o contrato de trabalho dos professores permite esse tipo de atividade.

  • Se a nossa empresa possui capacidade técnica e recursos humanos, no momento, para implementar essa nova funcionalidade. E também se conseguimos fazer isso em um período de tempo razoável.

Uma vez que a hipótese tenha sido validada, ela deve ser transformada em uma ou mais histórias de usuário. Por outro lado, caso ela não tenha se mostrado promissora, ela deve ser descartada. Porém, pelo menos, não perdemos tempo implementando e disponibilizando uma solução que não seria usada ou não iria agregar valor ao produto.

Entrevistas com Clientes

A principal técnica usada em processos de discovery são entrevistas com os clientes. Ou seja, é importante ouvir os clientes do sistema para entender profundamente seus problemas, hábitos e rotinas. E, assim, confirmar (ou não) se nossas hipóteses fazem sentido e, portanto, vão agregar valor para eles.

No entanto, é importante evitar um erro comum nessas entrevistas: perguntar diretamente para os clientes se nossa ideia é boa e se eles iriam usá-la, caso fosse disponibilizada no sistema. Quando fazemos esse tipo de pergunta, o mais comum é receber uma resposta afirmativa, mas apenas por uma questão de educação ou gentileza. Ou, simplesmente, porque os clientes querem encerrar logo a conversa.

Em vez disso, uma entrevista deve focar nos problemas e rotinas dos clientes. E também focar na experiência passada deles, em vez de perguntar como eles gostariam que fosse o futuro.

No sistema de exemplo, as perguntas poderiam ser as seguintes:

  • Qual foi a última vez que você precisou tirar uma dúvida importante com um professor? Isso aconteceu em quais disciplinas?
  • Você conseguiu tirar sua dúvida? Se sim, conte-nos como fez. Se não, houve algum tipo de prejuízo?
  • Você costuma fazer perguntas no fórum do sistema de ensino a distância? Elas te ajudam a tirar dúvidas?

Após as entrevistas e, caso nossas hipóteses tenham se mostrado promissoras, podemos dar um próximo passo, que normalmente envolve a construção de alguns protótipos ou MVPs.

Outras Técnicas

É importante mencionar também que, em certos cenários, nós não temos nenhuma ideia de como resolver um certo problema. Ou seja, esses cenários são diferentes daquele do nosso exemplo, no qual já tínhamos uma funcionalidade em mente que pretendíamos implementar no sistema.

Em tais cenários, nos quais as ideias e hipóteses não estão claras, podemos usar técnicas mais abrangentes de discovery, tais como:

Discovery com Scrum

Para incluir atividades de discovery em Scrum, costuma-se adotar um sistema com duas trilhas de trabalho (ou dual track), que rodam em paralelo, conforme mostrado na seguinte figura.

Sistema de duas trilhas (dual track) com Scrum

A primeira trilha inclui atividades de discovery, lideradas por POs e PMs, e seu objetivo é descobrir histórias de usuários para o backlog do produto.

Já a segunda trilha inclui sprints de delivery, que são os sprints que seguem Scrum de forma tradicional, conforme estudamos no Capítulo 2. O objetivo dessa trilha é implementar e entregar histórias de usuários.

Discovery com Kanban

Também podemos adaptar Kanban para incluir atividades de discovery. Normalmente, isso envolve o uso de dois fluxos de trabalho:

  • Upstream Kanban: esse é um novo fluxo (com seu respectivo quadro Kanban) que é criado para incluir apenas atividades de discovery. Por exemplo, ele pode incluir atividades para entender as demandas dos clientes e priorizá-las. Assim, somente vão entrar no backlog do produto as tarefas que, de fato, devem ser implementadas pelo time.

  • Downstream Kanban: representa o fluxo principal de Kanban, tal como estudamos no Capítulo 2, que começa com o backlog e prossegue com os passos de implementação das tarefas, tais como especificação, codificação e revisão.

Para ilustrar esses dois fluxos, costuma-se usar a imagem de um funil, como na seguinte figura:

O Upstream Kanban corresponde à parte do funil que vai se estreitando para deixar claro que nem toda demanda proposta pelos stakeholders precisa chegar ao backlog.

Achamos importante comentar também sobre a origem dos termos upstream e downstream. Uma possível tradução seria montante (upstream) e jusante (downstream). Especificamente, quando se constrói uma barragem em um rio, a parte do seu leito que foi represada, dando origem ao repositório ou lago, chama-se montante do rio; a parte do rio após a barragem é chamada de jusante.

Comentários Finais

Vamos concluir com um frase de Martin Cagan, um autor conhecido na comunidade de produtos digitais:

O objetivo de product discovery é separar rapidamente as boas ideias das ideias ruins. O resultado esperado é um backlog do produto com itens validados.

Exercícios

  1. Qual problema pode ocorrer quando se adota Scrum ou Kanban (de forma tradicional) e que atividades de discovery podem ajudar a resolver?

  2. Durante o processo de discovery, ao entrevistar usuários, por exemplo, podemos ter novas ideias, que vão gerar novas hipóteses. Descreva então uma nova hipótese de funcionalidade para o exemplo de ensino a distância e que também tente solucionar um problema enfrentado pelos alunos.

  1. Além de ter sido feita com a mãe do entrevistador, qual o principal problema com a seguinte entrevista?

    Filho: Mãe, mãe, eu tenho uma ideia para um negócio — posso apresentá-la para você?

    Mãe: Claro, querido.

    Filho: Você gosta do seu iPad, certo? Você usa ele muito?

    Mãe: Sim.

    Filho: Então você compraria um aplicativo que fosse como um livro de receitas para o seu iPad?

    Mãe: Humm.

    Filho: Deve custar apenas US$ 40 – ou seja, mais barato do que muitos livros de receita na sua prateleira.

    Mãe: Bem…

    Filho: E você vai poder compartilhar as receitas com seus amigos, e também virá com um aplicativo para iPhone que permite criar listas de compras. E vídeos daquele chef famoso que você ama.

    Mãe: Oh, sim querido, parece incrível. E você está certo, US$ 40 é um bom negócio. Terá fotos das receitas?

    Filho: Sim, com certeza. Obrigado mãe – te amo!

    Fonte: exemplo extraído do livro The Mom Test: How to talk to customers & learn if your business is a good idea when everyone is lying to you, de Rob Fitzpatrick.

  2. Descreva três perguntas mais importantes que o entrevistador deveria ter feito na entrevista anterior.


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